quinta-feira, 27 de julho de 2017

isso me deixa melancólico

Estávamos no shopping. Eu e ela. Minha então namorada. Alice. Era uma tarde de janeiro. Quente. Havíamos acabado de comer uma pizza e estávamos andando por lá sem muito o que fazer. Por fim, depois de pensar comigo mesmo, eu disse:

- Que merda.

- Que foi? - ela me perguntou.

- Essa vida - respondi, um tanto quanto melancólico e triste.

- Como assim, o que quer dizer? Não tá feliz comigo? - bradou.

- Não é isso. Mas olha onde estamos. Ou melhor: olhe onde EU estou. Num shopping, com a namorada, comendo uma pizza numa maldita praça de alimentação. Parece que, de um tempo pra cá, um pouco depois de te conhecer, simplesmente perdi a batalha. Estou fazendo exatamente o que eles mandam. Agora sou parte da engrenagem. Isso me deixa melancólico.

- Você acha que eu destrui a sua vida.

- Você me ajudou em alguns aspectos. Mas agora tudo mudou. Eu não sou como os outros. Pra mim, ir a um shopping-com-a-namorada-comer-pizza é patético. Não faz sentido.

Depois desse diálogo, vi que sua expressão, que até então era de excitação, se metamorfoseou numa expressão trágica. Lembrei de uma vez, na páscoa, depois de receber um dos meus primeiros salários como bolsista universitário, em que me peguei dentro da lojas americanas comprando os filhas da puta dos chocolates. Lembro que, na mesma hora, naquela fila imensa, rodeando quase toda a circunferência da loja, comecei a ficar triste. Estava errado. Não era pra ser assim. Eu estava sendo controlado por eles. Eles me diziam com o que gastar, como gastar. Quando gastar. Me sentia parte do rebanho. Alguma coisa dentro de mim se contorcia, hesitava, como se dissesse para mim mesmo: ei, cara, veja lá o que você tá fazendo.

- Lembra daquela vez na lojas americanas? - eu falei por fim.

- Aham - ela disse -, o que que tem?

- Eu fui só para te agradar - falei.

- Do que você está falando? - ela me olhou com uma cara amarrada. Sem expressão. Vazia. Senti náseas.

- Eu não me sinto bem seguindo o rebanho - falei -. Sabe - continuei-, eu sou outra coisa. Não tive amor. As pessoas são enganadas facilmente. Não sou assim. Gosto de pertencer a mim mesmo. Não gosto de ser controlado. Eu estou à margem. Quero dizer, ir aos supermercados na páscoa, ir ao cinema nos finais de semana, comer pizza na praça de alimentação, exibir uma namorada por aí: pra mim isso é tudo merda. Muitas pessoas anseiam por isso e eu lhes digo: anseiam pela merda. Eu gostaria muito mais de ficar deitado com você do meu lado. Pra mim já é suficiente.

Vi que olhava pra mim decepcionada. Senti alguma coisa que jamais sentira. Geralmente, ela era muito previsível. Suas atitudes, suas falas. Eu já sabia antecipadamente. Mas desta vez eu a olhei e não consegui decifrá-la. Senti medo.

- Eu estraguei a sua vida - ela falou, chorando.

- Você é diferente de mim - eu expliquei.

- Então, estraguei a sua vida.

- Amor, pare com isso.

Continuávamos andando e eu sentia um embrulho no estômago. Saíamos do shopping e fomos andando até a casa dela: eu iria deixar ela em casa e ir embora. Era isso. Minha vida. Eu queria ação, queria sentir alguma coisa. Ela, só ir ao shopping e comer a maldita pizza e frequentar o maldito cinema comercial escroto. Tudo uma merda: os atores, a fotografia. Era tudo comercial, sem nada, sem alma. E eu não tinha tempo pra isso. Era-me muito mais romântico cair bêbado na calçada de algum bar. Ler Hemingway.

Chegamos a sua casa e ela perguntou se eu queria entrar pra tomar alguma coisa. Não, respondi. As relações humanas são complicadas, pensei. É tudo muito complexo, as pessoas principalmente. No começo, era lindo, romântico. Mas, um tempo depois, geralmente meses, tudo decaía. Virava rotina. As mulheres geralmente não gostam. Elas querem curtir, sair, sobretudo as jovens. Não as culpo. Eu sou solitário. Não gosto de multidões. Às vezes eu sentia saudades da humanidade e saía. Mas era tão repugnante que eu me lembrava que precisava voltar pro meu SUBSOLO. O mesmo do Dostoiévski. Do homem ridículo. Mal. Sem atrativos. Que sofria do fígado.

- Então é isso? - disse ela.

- Me desculpe. Você merece alguém melhor do que eu.

Com isso, fui embora, pensando em como tudo aquilo era um grande teatro, narrado por idiotas. Era tudo previsível. As namoradas, os filmes. As pessoas na praça de alimentação me deprimiam. Cheguei em casa, coloquei alguma coisa pra tocar, deitei na cama e abri um livro do Ginsberg. Li alguns poemas marginais, sujos. Dei um sorriso. A vida enfim me dava uma folga.

terça-feira, 18 de julho de 2017

confissões de uma homem suficientemente louco para viver com as feras part 2

O suicídio de um jovem rebelde romântico


Eu estava em meu apartamento sem água quente e com o aluguel um mês atrasado numa rua qualquer do subúrbio do Rio de Janeiro. Sentia-me completamente improdutivo e sem esperança. Eu era um jovem em busca de alguma experiência verdadeira, alguma ação. Já estava cansado de futilidades – pegar o ônibus no horário, bom dia pra qualquer pessoa, compras no supermercado. Fora, um tempo atrás, despejado do serviço militar por incapacidade física. Agora, já com vinte anos, fazia um curso de filosofia numa universidade local só para ter uma ocupação. Com exceção de alguns professores, eu já estava completamente entediado com tudo aquilo.

Alice era uma garota com quem eu mantinha contato e de vez em quando, geralmente quando eu ficava a maior parte do dia deprimido, ela aparecia e trazia bebida e cigarro e livros novos. Eu costumava ler alguns autores que não vem ao caso citar, mas ultimamente eu perdera o interesse – simplesmente eu não conseguia mais ler. Nietzsche era um caso.


Mais uma vez deprimido – ela disse.

Sim – eu disse.

O que foi dessa vez? – perguntou.

É só que a minha vida não faz sentido e eu não consigo imaginar nada pelo que valha a pena levantar todos os dias – respondi, meio irônico, meio verdadeiro. 

Você parece um adolescente espinhento e punk se achando um grande existencialista camusiano, mas que, na verdade, não passa de alguém normal e ordinário como todos os outros – ela me disse.

Não está ajudando – falei, já com um pouco de tédio.

               
Ela estava realmente certa. Minhas reflexões filosóficas sobre a existência não tinham nenhum embasamento. Mas eu não tinha um Deus, uma crença, não era comunista, não acreditava em nada. Camus disse que o suicídio é o único problema filosófico sério. Talvez ele esteja certo. 


Trouxe umas bebidas – ela disse, pegando uma garrafa de Heineken e, depois de tirar a tampinha com os dentes, me passou.

Obrigado – eu disse – isso vai ajudar. E dei uma longa golada.


Ficamos por ali afundados no sofá com a TV desligada e o cinzeiro no braço do sofá onde as cinzas mais caiam fora do que dentro, de modo que sujava todo o braço e, de tanto que aquilo se repetia, uma hora eu simplesmente desisti de limpar e deixei e só limpei o chão. Alice não fazia nenhuma faculdade e nem trabalhava e tinha 20 anos. Ela se considerava autodidata e lia muito os românticos alemães, a geração perdida e Charles bukowski, seu preferido, pejo jeito cru e visceral com que ele escrevia. Eu já tinha lido-o também e era um dos poucos que eu ainda suportava, uma vez que não exigia muito de mim. Éramos dois jovens sem esperança e decepcionados com a vida.


Ontem eu fui pra um bar – ela disse – e fiquei ouvindo a música e bebendo com os amigos e um cara me agarrou e me forçou para que eu o beijasse.

Esses tipos não são nem um pouco originais – eu falei – não possuem nenhuma criatividade e se acham viris demais pra qualquer coisa.

E você? – ela me perguntou

O que tem eu, querida? – perguntei, meio sem entender a pergunta.

Se acha o fodão aí – falou – melhor que todo mundo. Só porque você ler esses autores e as pessoas normais estão preocupadas demais com a moda e com o futuro e com fazer cursinhos técnicos. Você se acha superior porque faz uma faculdade e é inteligente.

Cara – eu falei – eu não vejo sentido nenhum no meu curso e não me acho nada inteligente.

Mas você se acha superior às pessoas porque elas estão tentando ganhar a vida com cursos tecnológicos e não entendem nada de literatura e filosofia – ela retrucou, com um sorriso.

Realmente – eu falei – essas pessoas me entediam e eu as desprezo.

           
Eu falava e falava e falava e não aguentava mais. Depois de um tempo, Alice foi embora e eu permaneci sozinho e vazio. A bebida tinha acabado. E olhei ao redor. Fui até a janela e avistei os carros e as pessoas andando preocupadas e falando ao celular e em casais e com seus bebes chorões e com seus filhos gordos pedindo sorvete e jovens com suas roupas de técnico andando apressados e eu percebi que não fazia parte daquilo. Tinha que encontrar um grupo, pessoas como eu. Sem esperanças. Um tipo de rebelde romântico anarquista. Ao mesmo tempo eu odiava pertencer a algum grupo, pois isso exigia responsabilidades e, ao contrário de Sartre, eu não estava nem aí pra isso. Decidi ir até o quarto. Abri a gaveta da escrivaninha e peguei-a. A salvação.


               Alice sabia. Dostoiévski sabia. Engatilhei e atravessei meu crânio com uma bala calibre 38. Cai débil e inútil no chão.    

domingo, 9 de julho de 2017

Confissões de um homem suficientemente louco para viver com as feras

  
Que foi – ela disse – tá triste?
Por que eu estaria? – respondi
Sei lá. – ela disse. Você tá sempre triste.

E de fato eu estava sempre triste. Mas não era uma tristeza vulgar e mesquinha. Era, ao contrário, um estado de melancolia constante sobre o qual eu vivia e não conseguia mais sair. Via tudo com melancolia e desprezo. Frequentemente me sentia superior às pessoas na faculdade e nos mercados e nas padarias e nos bares e nas festas e na minha solidão. Todo mundo parecia levar tudo muito a sério e quase ninguém via alguma coisa com ironia: provas, trabalhos em grupo, pegar o ônibus, chegar no horário, bater cartão, assinar presença. Tudo isso, para mim, não fazia o menor sentido e eu andava por aí sem qualquer pretensão ou perspectiva: e isso, por um lado, me ajudava a lidar melhor com toda essa merda; ao passo que, por outro, acabava me privando de algumas interações que poderiam resultar em alguma coisa visceral.

Ando num estado de equilíbrio aristotélico – respondi.
Como assim? – ela disse.
Não me sinto de fato feliz e nem triste. – expliquei.
E como se sente? – perguntou.
Vazio. – disse.
Não sente amor pela vida, pelo mundo?
Não propriamente. – eu disse.Vejo a vida como uma grande peça de teatro sem um roteiro definido. Algumas pessoas inventam seus próprios demiurgos a fim de viver com algum sentido. Eu não acredito mais em nada: no meu curso de filosofia, no seu curso de física, nos professores caminhando pelos corredores como se detessem, de alguma forma, a verdade. Essa característica que me falta. Não quero nenhuma verdade, nenhuma moral, nada. Só ando por aí esperando alguma coisa acontecer.
Você é estranho. – Ela disse.
Desculpa.
Foi um elogio.
Obrigado.

sábado, 1 de julho de 2017

horrível

a esperança escorregou
pelas mãos e a perspectiva
de um futuro já
não é tão atraente assim.
todos os dias tem sido
horrivelmente
comuns e creio que
habito num espaço vazio.
a humanidade
anda
escrevendo capítulos e tais
não são louváveis e
talvez nem eram pra ser.
como ainda estou aqui, não sei.
eu só quero encontrar
um sentido para minha vida.

e às vezes ele nem está tão longe assim.