domingo, 9 de julho de 2017

Confissões de um homem suficientemente louco para viver com as feras

  
Que foi – ela disse – tá triste?
Por que eu estaria? – respondi
Sei lá. – ela disse. Você tá sempre triste.

E de fato eu estava sempre triste. Mas não era uma tristeza vulgar e mesquinha. Era, ao contrário, um estado de melancolia constante sobre o qual eu vivia e não conseguia mais sair. Via tudo com melancolia e desprezo. Frequentemente me sentia superior às pessoas na faculdade e nos mercados e nas padarias e nos bares e nas festas e na minha solidão. Todo mundo parecia levar tudo muito a sério e quase ninguém via alguma coisa com ironia: provas, trabalhos em grupo, pegar o ônibus, chegar no horário, bater cartão, assinar presença. Tudo isso, para mim, não fazia o menor sentido e eu andava por aí sem qualquer pretensão ou perspectiva: e isso, por um lado, me ajudava a lidar melhor com toda essa merda; ao passo que, por outro, acabava me privando de algumas interações que poderiam resultar em alguma coisa visceral.

Ando num estado de equilíbrio aristotélico – respondi.
Como assim? – ela disse.
Não me sinto de fato feliz e nem triste. – expliquei.
E como se sente? – perguntou.
Vazio. – disse.
Não sente amor pela vida, pelo mundo?
Não propriamente. – eu disse.Vejo a vida como uma grande peça de teatro sem um roteiro definido. Algumas pessoas inventam seus próprios demiurgos a fim de viver com algum sentido. Eu não acredito mais em nada: no meu curso de filosofia, no seu curso de física, nos professores caminhando pelos corredores como se detessem, de alguma forma, a verdade. Essa característica que me falta. Não quero nenhuma verdade, nenhuma moral, nada. Só ando por aí esperando alguma coisa acontecer.
Você é estranho. – Ela disse.
Desculpa.
Foi um elogio.
Obrigado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário